Responsa na Escola: projeto sensibiliza empresários da educação para uma gestão solidária


Iniciativa inédita reforça o papel da instituição educacional na sociedade e mostra como ações solidárias são primordiais para o crescimento dos públicos com os quais se relaciona, contribuindo para a formação dos adultos do amanhã, não somente em tempos de crises.


Qual o propósito de atuação de uma escola? Como a instituição de ensino contribui, efetivamente, para o desenvolvimento sustentável do planeta e de toda a sociedade?

Com o objetivo de transformar reflexões utópicas em iniciativas concretas, a Doutora em Comunicação Lucy de Miguel, fundadora do Instituto Noa, quer usar seu conhecimento e experiência para sensibilizar, em dois anos, 5.000 diretores escolares acerca da importância de uma gestão escolar socialmente responsável.

O desejo de mudar a realidade inspirou a criação do Programa Escolas do Bem, há quatro anos. Mas, em seus contatos com os diretores, ela percebeu que faltava investir em formação teórica sobre este tema. Muitos não entendiam como sair do nível da filantropia e passar para o de responsabilidade social.


Nasce, então, o projeto Responsa na Escola. Com essa iniciativa inédita, a proposta é estimular uma mudança de comportamento em prol de uma sociedade comprometida com o desenvolvimento sustentável e também com o bem-estar das pessoas, por meio da solidariedade.


Nesse sentido, Lucy é enfática ao defender que “o planeta não sobreviverá se não formarmos cidadãos solidários”. E que uma mudança tão urgente e necessária começa pelo exemplo. Daí a importância do engajamento das escolas e da adesão dos gestores: afinal, toda mudança começa pelos líderes.

Para vencer os inúmeros desafios que se acentuam com a pandemia de coronavírus, é necessário resgatar sentimentos e emoções para proporcionar uma educação que esteja alinhada à solidariedade. Na prática, é preciso sair da bolha e passar a enxergar o coletivo.

Confira, nessa entrevista especial, os pilares do projeto Responsa na Escola, que também enaltece a solidariedade como um diferencial competitivo.”Promover o bem faz com que todos saiam ganhando. Não apenas quem é ajudado”, resume. Continue a leitura e deixe-se contagiar você também!

Qual o objetivo do projeto Responsa na Escola e por que ele é imprescindível num momento tão difícil para a educação, como o que estamos passando?

Lucy De Miguel - A proposta central é a de sensibilizar e ampliar o conhecimento da sociedade sobre a importância da solidariedade na construção de um mundo melhor. Nada na natureza cresce sozinho. Aprendemos desde pequenos sobre o funcionamento de um ecossistema, das interações entre os organismos e da sua total interdependência. Aprendemos sobre a importante relação dos indivíduos entre si e com o meio ambiente. Para tudo na natureza existe uma corresponsabilidade. Se algo interfere negativamente em algum ponto da cadeia, todos os demais sofrem as consequências. Essa é a base do projeto: nós somos a natureza, fazemos parte dela. Todas as nossas ações, boas ou ruins, têm impacto em tudo o que está ao nosso redor. Esse é o princípio da responsabilidade social. É a terceira lei de Newton (Lei da Ação e Reação) ou, em um contexto mais espiritualizado, é a lei do retorno. Cada um entende do seu jeito.

Você diz que a solidariedade é a única forma de construirmos um mundo melhor. Mas vemos tantas ações sociais desde que o mundo é mundo e as desigualdades sociais são cada vez maiores, o planeta segue sendo destruído. Como você vê essa saída?

LM- Há dois pontos aí. Solidariedade é diferente de caridade e esses conceitos são muitas vezes usados como sinônimos. Caridade é o que herdamos de uma cultura judaico-cristã, de amor ao próximo. Resume-se à doação pura e simples, para resolver um problema pontual. É a base da filantropia, que, na prática, é o ato de ajudar os mais necessitados. Isso fortalece a ideia de que o mais forte ou mais rico deve ajudar o mais fraco ou mais pobre. Reforça as relações de superioridade, de hierarquia e estratifica, ampliando as desigualdades.

Já a solidariedade, que é a base da responsabilidade social, valoriza e promove a interdependência, de forma horizontal. Eu te ajudo, você me ajuda e crescemos juntos. Não importa a minha posição social, se eu sou mais rico ou mais pobre que você, se eu tive mais ou menos oportunidades educacionais do que você. É um relacionamento onde todos ganham. Trata-se de uma colaboração mútua para o crescimento de todos. É uma mudança de comportamento, a partir de uma visão ampla de mundo. O planeta não sobreviverá se não formarmos cidadãos solidários.

E por que o projeto tem o foco nas escolas, principalmente nas particulares?

LM- Porque uma mudança de comportamento, nessa escala de urgência, tem que vir pelo exemplo. A criança aprende pela observação do adulto e, depois, pela sua própria experiência. Então, precisamos desenvolver no adulto essa consciência e essa prática, pois é ele o formador, o tutor ou orientador das novas gerações. Sejam os pais, professores, cuidadores. Todos somos corresponsáveis pela construção da sociedade que queremos no futuro, pelos valores que queremos ver nos próximos empresários, empreendedores, políticos, médicos... Não adianta reclamarmos do nível intelectual ou do caráter do presidente que o Brasil elegeu, por exemplo, porque iguais a ele há aos montes. Não se trata só de bater panela. Nós temos que cuidar do broto, para que a vida nos dê flor e frutos, como na canção do Milton Nascimento. O projeto Responsa na Escola tem um alvo certo: o gestor/diretor, pois a mudança precisa começar na liderança. Começamos pelas escolas particulares porque queremos crescer em onda. Para promover uma mudança de gestão é preciso ter autonomia e poder de decisão. A ideia é fazer esse conceito crescer nas particulares até que chegue na gestão pública.



Na prática, como essa mudança começa na escola?

LM- Começa pelo propósito. Nós fazemos um trabalho para resgatar o propósito principal da educação, que tem a ver com sentimentos e emoções. Trabalhamos na conscientização do gestor, pois é esse líder quem vai promover todo o movimento, toda a mudança. Ele precisa interiorizar esse conceito e a partir daí mobilizar sua equipe, professores, pais, vizinhança, concorrência, fornecedores e outros stakeholders, contribuindo uns para o crescimento dos outros e assim impactar da melhor forma possível o seu entorno. Se cada escola fizer a sua parte, mudamos os bairros, as cidades, os estados... e nessa espiral mudamos o mundo.

É verdade que empresas ou organizações que implantam um modelo de gestão socialmente responsável conseguem melhores resultados, sabem lidar melhor com períodos de crise como este? Você concorda com isso?

LM- Sim, totalmente. E essa é uma forma de gestão, usada por grandes empresas, que se intensificou após a Segunda Guerra Mundial. Foi um período muito parecido com o que vamos viver nos próximos meses, com a recessão nas economias. Crises sempre existiram e sempre vão existir. A diferença entre a empresa que consegue sobreviver à crise, daquela que não resiste, está na atuação de uma gestão responsável. Se ela plantou boas sementes, irá colher bons frutos. A organização, e neste caso a escola, precisa entender que faz parte de um sistema, não é uma ilha isolada. Se ela cuida do seu público interno e do externo (que são seus clientes ou potenciais clientes), não há o que temer. O problema está naquelas que não estão fazendo a lição de casa direito: estão fechadas em seus próprios portões e não conseguem ter uma visão sistêmica e solidária. Abrir os portões, olhar pra fora e entender a sua participação nesse “ecossistema” pode ser um bom começo.

Quanto tempo é necessário para vermos os impactos dessa mudança?

LM- Depende do tamanho do resultado. Quanto menor o resultado que se quer atingir, mais rápido. Também há aprendizagem na solidariedade, isso quer dizer que é possível ampliar a qualidade da educação por meio de projetos solidários. A Feira de Troca de Brinquedos, promovida pelo Instituto Alana, e que conscientiza sobre a redução do consumo, proporciona experiências incríveis em duas ou três horas de evento. Os pais são os mais impactados, pois percebem, pelas atitudes e comportamentos das crianças, qual o valor que eles dão para coisas materiais. É comum ver crianças trocando brinquedos caríssimos por aqueles de baixo custo, como um pião ou bolinhas de gude. Essa é uma mudança rápida. Os adultos começam a pensar de forma diferente e vão passar isso aos filhos. Agora, numa perspectiva de longo prazo, eu acredito que se a criança estiver exposta e vivenciando ações solidárias frequentemente, aprendendo valores éticos e morais imprescindíveis para a sua formação humana e cidadã, o impacto será sentido em sua vida adulta, daqui 15, 20, 30 anos. Eu tenho certeza de que o planeta e as relações sociais serão muito melhores do que temos hoje. Isso é evolução. A sociedade civil precisa assumir o controle, e isso significa assumir as suas responsabilidades, e planejarmos o futuro que queremos para a humanidade, para as próximas gerações.



Como será essa capacitação dos gestores escolares? LM - Antes da pandemia estávamos realizando workshops presenciais, com três horas de duração, em parceria com o Sebrae, Instituto Singularidades, Universidade São Caetano do Sul, entre outros parceiros. Chegamos a formar mais de 400 gestores. Mas agora aderimos aos treinamentos online e totalmente gratuitos. Desta forma conseguimos atender empresários da educação do Brasil inteiro, ampliando o conhecimento de todos. Por isso temos essa meta ousada de capacitar 5.000 gestores até dezembro de 2021. Quem quiser conhecer mais sobre esta capacitação, deve entrar no site www.responsanaescola.com.br/workshop e fazer sua inscrição.

Sobre o Instituto Noa

A organização sem fins lucrativos foi fundada em 2014 pela jornalista e empreendedora social Lucy De Miguel, que sempre teve seus negócios pensados em promover uma transformação da sociedade, baseada na ampliação do conhecimento. Com sede em São Paulo, coordena o programa Escolas do Bem e a plataforma de educação Meus Cursos Livres, projetos desenvolvidos em parceria com escolas públicas e privadas de todos o Brasil. Veja mais no site do Instituto Noa. Imagens: Depositphotos

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