Álcool: um assunto que precisa ser conversado em casa

 

Não há dados oficiais que mostrem que beber na frente dos filhos pode influenciá-los a consumir álcool. Porém, uma coisa é certa: é preciso falar sobre esse assunto.

 

Consumir bebidas alcoólicas na frente dos filhos pode influenciá-los ao vício? É melhor proibi-los de beber ou “liberar geral”? O que devo fazer com relação a isso? Essas são dúvidas muito frequentes de pais que se deparam com a adolescência dos filhos e não sabem quais atitudes tomar com relação à orientação do uso de álcool. Muitos especialistas acreditam que os pais podem, sim, influenciar seus filhos a beber. Outros negam essa hipótese e defendem que a vontade vai de cada um e que a atitude dos pais em nada interfere nesse processo.

 

Segundo a psicanalista Marcia Frati, que atua na área de atendimento de adultos, casais e famílias, os pais têm uma relação direta com a postura que seus filhos irão ter com relação ao álcool. “Os pais podem influenciar sim os filhos na ingestão de bebidas alcoólicas, seja esta influência pelo exemplo ou simplesmente por não os instruírem sobre os malefícios que essa droga pode causar para si e para os outros”, explica.  Ainda de acordo com a psicanalista, os pais que consomem bebidas alcoólicas na frente dos filhos, mesmo que apenas socialmente, exercem uma influência maior e até um estímulo para que estes consumam também, porém, isso funciona de forma diferente no caso de alcoolismo: “Já no caso de filhos de pais alcoólatras pode ser diferente. Se o pai apresentar um comportamento agressivo, por exemplo, isso pode desestimular o filho a consumir, pois cria nele o que chamamos de formação reativa, que é a necessidade de não repetir atitudes que não aceita moralmente”, comenta a psicanalista.

 

Já para o professor do Departamento de Ciências Humanas e Educação (DCHE) do Campus Sorocaba da UFSCar e coordenador do Centro Regional de Referência em Educação na Atenção ao usuário de Drogas de Sorocaba (CRR), Marcos Garcia, há outro ponto de vista. Para ele, as pessoas usam drogas porque sentem prazer e a proibição só aumenta a vontade e curiosidade em ter contato com aquilo. “Partimos do principio de que o estímulo para o consumo de álcool e drogas pode vir da proibição. Quanto mais se proíbe o uso, mais desperta-se uma curiosidade”, afirmou o professor. 

 

Como fazem as famílias

 

 

Marita dos Reis, 53, e Helio dos Reis, 56, são pais de dois filhos, Rodrigo e Henrique. Marita acredita quer dar exemplos ruins faz com que haja uma maior possibilidade de seus filhos fazerem coisas erradas. “Eu sempre me preocupei em dar bons exemplos e nunca permiti que eles bebessem dentro de casa enquanto eram menores de idade”, conta.

 

Henrique dos Reis, 26 anos, lembra que, de fato, não consumia bebidas alcoólicas na frente de seus pais antes de completar 18 anos. “Demorei para mostrar que fazia isso e até hoje reluto em beber na frente deles, até porque minha mãe sempre foi a que mais me orientou à respeito do álcool e do alcoolismo devido ao histórico da minha família. Aliás, até hoje ela me aconselha e tenta me convencer a não consumir bebidas”, diz.

Henrique, porém, não tem certeza se os pais possuem influência direta na escolha de seus filhos em beber ou não. “Acredito que pode haver uma influência, mas também o contrário pode acontecer. A bebida existe mesmo com a mãe e o pai impedindo. Na primeira oportunidade a criança pode beber movida pela curiosidade ou não. Há casos e casos”, explica.

 

 

Karina de Souza, 34, e Sérgio Augusto Garcia, 40, são pais de Isabela, de 7 anos. Eles contaram que, quando a filha nasceu, não discutiram se iriam beber ou não na frente dela, porém sabiam a postura que teriam caso ela desejasse consumir alguma bebida alcoólica que estivessem ingerindo.  “Nunca permitimos que ela experimentasse, nem com a nossa supervisão. Sempre explicamos que álcool não é para crianças”, afirmaram.  Além disso, os pais de Isabela se preocupam em contar a ela quais são os problemas que o álcool pode causar. “Ela sabe o que é alcoolismo, quais são os efeitos que as bebidas podem causar e entende que o uso deve ser feito com moderação. Fora isso, também a ensinamos sobre a lei seca e os riscos que existem quando se bebe e dirige”, comentam.

 

A professora Andrea Maria Maciel, 30, é filha de pai alcoólatra e mãe fumante. Segundo ela, ter um pai com problemas não a impediu de consumir bebidas alcoólicas. “Nunca tive medo de me tornar como meu pai. Comecei a beber aos 19 anos e meus pais nunca tentaram me impedir. Porém, até hoje não bebo na minha casa”, explica.

 

Sobre a postura que pensa em ter caso seja mãe, a professora afirma que evitará fazer o uso do álcool na frente dos seus filhos. “Se eu tiver filhos, não beberei na frente deles porque eu acho que incentiva, eu fui um pouco incentivada na minha casa, não diretamente, mas fui”, explica.

 

Já Marcel Cataldi, 38, com um histórico familiar de pai, avô materno e tios alcoólatras, começou a beber aos 14 e já enfrentou problemas sérios com o álcool. “Eu achava bonito beber, por isso resolvi experimentar”, lembra. Após esse início, a bebida se tornou companheira de Marcel. Logo que saiu de casa e começou a trabalhar bebia todos os dias, muitas vezes até durante o expediente de trabalho. “No meu trabalho havia um bar e eu bebia o dia todo, inclusive, se precisasse sair para resolver algo na rua ia parando nos bares que encontrava pelo caminho”, conta. Ainda segundo Cataldi, aquilo era normal e ninguém falava nada a respeito. Porém, após um tempo o álcool começou a ser usado junto com as drogas e foi somente aos 34 anos que percebeu que precisava parar. “Eu estava no fundo do poço, não tinha mais para onde ir e nem o que fazer. Foi quando minha mãe me internou em uma clínica de reabilitação, fiquei lá por três meses e desde que saí nunca mais bebi”, afirma.

 

Marcel conta ainda acreditar que os problemas de dependência química são passados hereditariamente, de pais para filhos. “Além disso, há a vantagem de que o álcool é uma fuga, nele você se esconde e acaba escapando de resolver vários problemas”, diz.

A psicanalista Marcia Frati explica qual é a postura mais indicada para pais que se sentem em dúvida sobre como fazer para orientar seus filhos sobre os perigos do álcool: “A conscientização sobre o assunto é o melhor meio de prevenção ou retardamento do consumo de álcool. Falar sempre no assunto e mostrar os malefícios que o álcool pode causar, acaba criando nos filhos uma maneira diferente de olhar para o assunto”, enfatiza.

 

Além disso, para Márcia outro bom caminho é o da sinceridade. “Não podemos negar que os efeitos do álcool, assim como os das drogas, num primeiro momento, são muito prazerosos. Não se deve esconder isso dos filhos ou tentar enganá-los dizendo que a bebida alcoólica é ruim. O que pode ser ressaltado são os efeitos posteriores do álcool, principalmente orgânicos e mais ainda as consequências dos atos que uma pessoa alcoolizada pode cometer”, finaliza a psicanalista.

 

 

 

* Danielle Assis é estudante do 7º semestre de jornalismo da Uniso (Sorocaba-SP) e participante do projeto Muito Mais, sob orientação do jornalista Pedro Courbassier, voluntário no Instituto Noa (www.institutonoa.org.br)

 

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