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"Sou gay. E agora?"

A homossexualidade é um assunto que ainda causa desconforto em muita gente. Mas a mentalidade das pessoas está mudando.

 

 

 

            Adolescência é uma fase de descobertas. O jovem descobre o beijo, o sexo, o prazer. E, às vezes, descobre que é gay. E, mesmo em uma época onde as pessoas estão aceitando cada vez mais a homossexualidade, o assunto ainda é um tabu para muita gente, o que acaba deixando o jovem com dúvidas e medos.

 

            Um dos grandes dilemas que surgem quando se fala nesse assunto é se a pessoa nasce assim ou se torna gay por influência do meio em que vive. A professora e psicanalista Beth Cerquinho explica que existem várias teses sobre o tema. Ela acredita que a homossexualidade não seja genética, e que ao nascer já se define a sexualidade: “Freud explica que já se nasce pré-definido. Quem é, é”.

 

            Alguns jovens homossexuais entrevistados concordam e dizem que quem é gay, nasce assim: “não é uma escolha ou influência que o torna gay”, afirma o estudante de Design Gráfico Glauber, de 20 anos. “Desde pequeno nos é dito que gostar de pessoas do mesmo sexo é errado”, desabafa William, 19 anos, estudante de Relações Públicas, que somente se aceitou aos 17 anos: “eu mantive por algum tempo esse pensamento, mas percebi que isso é uma grande besteira e que eu estava me privando de ser feliz”.

 

            A questão familiar é um dos maiores problemas que a maioria dos jovens gays enfrentam. Guilherme, que tem 19 anos e cursa Jornalismo, conta que teve medo da reação da família, mas logo disse para eles sobre sua condição sexual: “por quase duas semanas, minha mãe, meu pai e minha avó choravam dia e noite e eu chorava também”. Lucas, 19 anos, estudante de Jornalismo, fala que sua família já desconfiava da sua condição, mas que para sua avó foi um choque quando ele contou.

 

 

 

           A psicanalista Beth diz que, muitas vezes, a forma de pensar dos familiares é de uma época diferente, mas que a principal causa para os pais não aceitarem a condição dos filhos é o medo de sofrer bullying dos amigos: “se não tivessem que dar satisfação para a sociedade, a maioria dos pais que não aceita a condição sexual dos filhos não faria o drama que faz”. Ela explica que quando os pais não aceitam a condição do filho, eles reagem usando argumentos financeiros, dizendo que não vão mais sustentar o filho, por exemplo. “Existem pais que não aceitam de maneira alguma. Alguns chegam a dizer que preferem o filho morto do que gay. A própria família acaba jogando os adolescentes na marginalidade, e ai eles podem começar a usar drogas, se prostituir, e ter problemas que poderiam ser evitados se fossem acolhidos”. Ela diz que o mais indicado é que as famílias e os jovens busquem uma terapia familiar para conseguir lidar melhor com a situação, mas que é muito difícil as pessoas seguirem esse caminho.

 

            Há também os casos em que as famílias lidam bem com o assunto. É o caso de Guilherme e William. Ambos dizem que o tempo foi um facilitador e que hoje a família os apoia e enxerga tudo com normalidade.

 

            A psicanalista Beth Cerquinho convive com a homossexualidade dentro e fora dos consultórios: ela é mãe de duas filhas homossexuais. A terapeuta  conta que sempre conversou muito com as meninas e que lidou com a questão de forma natural, o que fez com que suas filhas fossem bem resolvidas e assumissem a homossexualidade de forma simples. “As duas me dão o maior orgulho do mundo. Ser mãe é ter um amor incondicional pelos filhos, independentemente de condição sexual”, afirma Beth, que diz que a família deve amar seus filhos sem expectativas: “assim, se evita frustrações”.

 

Família X Sociedade

 

            O preconceito da sociedade é outro problema que os jovens homossexuais enfrentam. A psicanalista fala que as famílias que aceitam a condição dos filhos devem prepará-los para as decepções e discriminações que podem sofrer na rua. “O preconceito é constante”, conta Lucas. Beth explica que existem homossexuais que nunca se revelam por medo do preconceito ou por imposição da família: “eles até casam com pessoas do sexo oposto e têm filhos. Mas essas pessoas serão amargas e infelizes pelo resto da vida, e nunca estarão contentes consigo mesmas”. Ela diz ainda que o jovem pode se reprimir por causa da opressão da sociedade e do meio em que vive e ficar perdido, sem saber se é ou não homossexual. “A pessoa esconde tanto sua condição que acaba escondendo de si mesma”, fala a psicanalista.

 

            Quanto a mídia, Beth diz que ela poderia ter uma boa influência nessa questão, mas que “hoje em dia, ela mais confunde do que clareia a cabeça dos jovens sobre o assunto. A impressão que se tem é que a mídia incentiva conflitos ao invés de apaziguá-los”. Beth acredita que as novelas tentam mostrar a figura do homossexual, mas acabam fazendo isso através de estereótipos e exibicionismo. “Gays não agem sempre explicitamente. As novelas parecem impor que as pessoas aceitem os homossexuais, e impor não é o caminho para aceitação”, analisa a psicanalista. “Acho que o tema deve ser abordado sim, mas estes estereótipos são equivocados. Nem todo gay vive saltitando por ai”, opina o estudante de jornalismo Guilherme. “Quando as novelas mostram uma família constituída por homossexuais felizes eu acho correto. Afinal, somos como qualquer outro casal heterossexual com planos, vontades e problemas”, finaliza Glauber.

 

            Mas, mesmo com o preconceito que ainda sofrem, os homossexuais têm assumido sua condição cada vez mais. “Vivemos em uma época onde estamos mais liberais. Portanto, é mais fácil para quem está bem resolvido dizer para as pessoas que é homossexual”, explica a psicanalista, que diz que um grande espaço já foi conquistado, mas que ainda falta muito. Para quem tem medo ou vergonha de admitir que é homossexual, William diz que cada um tem seu tempo para aceitar e assumir que é gay, mas que o mais importante é aceitar a si mesmo: “o resto vai ficar mais fácil depois disso. Não tenha pressa para contar a todos, faça isso somente quando estiver realmente preparado. E não se preocupe, pois alguém sempre estará do seu lado”, conclui.

 

*O sobrenome dos entrevistados foi retirado para não os expor.

 

 

* Ivana Santana é estudante do 5º semestre de jornalismo da Uniso (Sorocaba-SP) e participante do projeto Muito Mais, sob orientação da jornalista Solange Prearo, voluntária no Instituto Noa (www.institutonoa.org.br)

 

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