Inversão de valores: quando a cesárea vira uma regra

No Brasil, a falta de informação e apoio por parte dos profissionais da saúde são os principais fatores para que a cirurgia seja feita desnecessariamente.

A gravidez é um período de grandes mudanças para as mulheres, sejam elas físicas, emocionais ou comportamentais. Neste período, o sentimento materno e protetor começa a aflorar nas futuras mães. Caso nenhum contratempo surja, uma gestação considerada comum costuma durar 40 semanas.

É na fase final da gravidez, e a partir de todas as informações colhidas durante o acompanhamento do pré-natal, que as gestantes conseguem saber se darão a luz por meio do parto normal ou através da cesárea. A primeira opção é um desfecho natural, no qual a mulher é capaz de ter contrações e dilatação necessárias para o nascimento do bebê. A segunda é indicada em casos de sofrimento fetal ou na ausência das condições fisiológicas citadas anteriormente, ou seja, quando existe algum tipo de risco materno ou infantil.

A problemática, no entanto, é que no decorrer dos últimos vinte anos houve uma inversão desses significados no Brasil. Dados da Organização Mundial da Saúde (OMS) de 2014 dão conta de que 52% dos partos realizados na rede pública de saúde foram feitos por meio da cesárea, enquanto o recomendado é apenas 15%. Quando nos referimos à rede privada esses números aumentam drasticamente para 83%. Em seu site oficial, a OPAS (Organização Pan-Americana de Saúde), em parceria com a OMS, declarou que “segue estabelecendo esforços e ações em cooperação técnica com o Ministério da Saúde objetivando a redução das taxas de cesárea no Brasil [...]”, país recordista na realização de cesáreas no mundo. Alguns especialistas usam os termos “epidemia” e “indústria da cesárea” para se referir ao assunto.

Um estudo realizado pela Fiocruz, intitulado “Trajetória das mulheres na definição pelo parto cesáreo”, mostrou que as gestantes não têm informações suficientes e necessárias para identificar as vantagens e desvantagens dos diferentes tipos de partos, e que o médico especialista tem baixa participação como fonte de informação.

Decisão materna

Casos como o da pedagoga Rafaela Guimarães, 35 anos, tornam-se cada vez mais comuns. Seu primeiro filho, hoje com 8 anos de idade, nasceu por meio de cesárea. Segundo ela, a decisão ocorreu pelo fato de o bebê não estar na posição favorável para o nascimento e, principalmente, porque o médico a desencorajou a optar pelo parto natural. A falta de informação foi outro fator que atrapalhou Rafaela em sua decisão.

Em sua segunda gestação, a pedagoga, desta vez melhor orientada e experiente, optou pelo parto natural domiciliar. Para Rafaela Guimarães, o processo trouxe fortalecimento, empoderamento, bem-estar, cura espiritual e saúde para seu bebê. “Eu comecei a ler e a me informar pelo assunto. Aos cinco meses eu já estava decidida pelo parto normal, e por volta dos sete meses optei pelo parto domiciliar”, conta.

Os benefícios do parto natural são vários, tanto para o bebê quanto para a mãe. Entre as vantagens estão o menor risco de infecção, favorecimento da produção de leite materno, laços sentimentais com o recém-nascido ocorrem com maior facilidade e o útero volta ao seu tamanho normal mais rapidamente. Também as mulheres que optam por esse processo saem do hospital em um ou dois dias.

Atualmente a questão da humanização do parto se tornou de grande relevância e é discutida com frequência por grupos que defendem a causa. Thiana Ferrarezi, 35 anos atua como parteira e doula desde 2011 e conta que no ambiente hospitalar ainda há muito desrespeito com as gestantes e seus bebês. É frequente o uso de substâncias medicamentosas para induzir e fazer com que o parto aconteça de forma mais rápida.

Muitos hospitais aceleram o processo por levarem em conta questões financeiras e de espaço. “Um grupo de pessoas se disponibilizou a rever as condutas hospitalares e lutar para que esses protocolos não fossem aplicados em todos os casos, levando informações para as mulheres, para que elas conseguissem dialogar com médicos na hora do parto, dizendo a eles o que gostariam ou não durante esse momento”, explica Thiana.

Parto Domiciliar

Algumas mulheres optam por parir seus filhos de maneira ainda mais singular. Cresce cada vez mais a procura pelo parto domiciliar e tradicional, com auxílio de parteiras e doulas. Este foi o caso da artesã Pâmela Belliato, 27 anos. Em sua segunda gestação, decidiu pelo parto normal domiciliar com parteira. Ela conta que sua filha de apenas um ano nunca contraiu nenhum tipo de doença e que é um bebê muito tranquilo e já demonstra autoconfiança.

Atriz, mãe e doula na tradição, Carolina Ferretti, 35 anos, optou por ter seus dois filhos por meio do parto natural. Sobre o excesso de cesáreas no Brasil ela desabafa dizendo que “a cesárea deveria ser para casos realmente necessários e não uma escolha da mulher, do médico e da família por ser mais prático ou supostamente mais confiável”.

Carolina Lopes é aluna do 7º período de jornalismo do Ceusnp (Salto - SP) e está participando do Projeto Muito Mais por indicação dos professores.

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